Governo do Estado de São Paulo quer fechar especialidades no Hospital Geral de Taipas

31/08/2017 POVO SEM MEDO, São Paulo, Saúde

Nota de denúncia escrita por militantes da Noroeste Sem Medo e do Núcleo Popular Antônio Bento, do PSOL

O movimento de defesa do Hospital Geral de Taipas [HGT], organizado pela população da região noroeste da cidade de São Paulo, vem denunciar o desmonte dos serviços de saúde no bairro de Taipas. A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo quer encerrar as especialidades de “oftalmologia” e “otorrinolaringologia” no maior hospital da região noroeste [HGT]. O objetivo da secretaria é encaminhar esses atendimentos para o Ambulatório Médico de Especialidades [AME], na Várzea do Carmo, e para a “Santa Casa”, ambos localizados na região central de São Paulo.

O AME que receberá a maior parte dos atendimentos está localizado no centro da cidade de São Paulo, no bairro do Cambuci. Tal bairro se encontra a cerca de 20 km de distância da região de Taipas, o que prejudica o acesso da população a essas especialidades. Ou seja, uma viagem de ônibus até o local pode demorar cerca de 2 horas, somando aproximadamente 4 horas de viagem, ida e volta. No entanto, há relatos em que alguns pacientes serão transferidos para hospitais localizados em Guarulhos [SP], o que desmente informações da Secretaria da Saúde. Isso se deve, em parte, pelo número de pessoas atendidas pela unidade, pois o hospital atende também os bairros de Jaraguá, Perus, Pirituba e parte da Vila Brasilândia.

As duas especialidades, oftalmologia e otorrinolaringologia, terão seus atendimentos encerrados no dia 31 de agosto. O Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde do Estado de São Paulo [SindSaúde-SP], por meio de nota enviada em 21/08/2017, declarou que essa mudança imposta pela Secretaria Estadual de Saúde faz parte da política de sucateamento do Sistema Único de Saúde [SUS]. Atribui-se tal ação a uma possível aliança entre o prefeito da cidade de São Paulo, João Dória, o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o Presidente da República, Michel Temer, segundo o SindSaúde-SP.

O que os movimentos organizados “temem”, incluindo nós da “Noroeste Sem Medo” e do “Núcleo Antônio Bento”, pauta-se na precarização de todo sistema, uma vez que a saúde é, além de “essencial”, um “direito” garantido pela Constituição Federal [1988]. No entanto, o que se observa é a “privatização” apresentada como a solução de todos os problemas que envolvem o país. Isso significa, em resumo, entregar serviços públicos a administração privada, ou seja, direcionar toda estrutura de saúde a iniciativa privada. Porém, as experiências anteriores demonstram que nem sempre os interesses do setor privado coincidem com os interesses públicos, ou melhor, com o bem-estar de todos, independente de quem seja.

Para demonstrar os interesses que envolvem o sucateamento do sistema de saúde, como salientado acima, daremos como exemplo um fato concreto. De acordo com matéria veiculada pelo O Globo, em seu site – “Operadoras de plano de saúde ampliam receita, apesar de perda de clientes. O Globo-RJ, 02/07/2017” –, os planos privados de saúde aumentaram seus lucros líquidos em torno de 66%, mesmo com a crise econômica instalada no país, em que ocasionou, por consequência, a queda na contratação dos serviços. Em contrapartida, os valores dos planos de saúde aumentaram. Em alguns casos o aumento foi de 13,5%, chegando até 40% em apenas um ano [2016], segundo a matéria. Notem, no presente período a inflação girou em torno de 6,29% [IBGE], de acordo com o jornal.

Dado o exemplo exposto acima, é necessário compreender o estado de coisas em que o Hospital Geral de Taipas [HGT] se encontra. Cabe ressaltar que alguns serviços de administração já são promovidos pela iniciativa privada, fato que não significou melhora nos atendimentos oferecidos pelo hospital. A realidade é muito diferente. Não é a toa que a população reclama da falta de equipamentos hospitalares e do atendimento de péssima qualidade. Como apontou o jornal G1-SP, veiculado na internet – Hospital Geral de Taipas tem macas nos corredores e falha de atendimento. G1-SP, 28/06/2017 –, pacientes que procuraram o hospital saíram sem nenhum tipo de atendimento. Quem frequenta o hospital sabe que isso já ocorre há muitos anos, lamentavelmente.

Apesar de tudo isso, a Secretaria da Saúde insiste em retirar as especialidades de oftalmologia e otorrinolaringologia do HGT, encaminhando alguns pacientes, com mais de 60 anos, ao Centro de Referência do Idoso no Mandaqui – G1-SP. Hospital da Zona Norte de SP vai fechar dois setores; médicos e pacientes reclamam, SP1, 16/08/2017. Ainda segundo a reportagem, a secretaria informou que “os casos de cirurgias serão analisados e que as mudanças são necessárias para reforçar o setor de ortopedia do Hospital de Taipas”. Tal declaração só expressa a falta de sensibilidade e conhecimento da realidade que envolve a população residente nas periferias de São Paulo. Um descaso total.

Mas a falta de respeito da Secretaria Estadual da Saúde com a população, que necessita de tratamento, não para por aí. É fato que a população não foi consultada, por meio da secretaria, em nenhum momento sobre a questão. Pega de surpresa, os pacientes e os moradores do bairro se indignaram com a mudança, visto a grande distância entre a nossa região [Taipas] e o bairro do Cambuci [Centro], dificultando, assim, o acesso às especialidades. O Conselho Gestor do Hospital de Taipas disse que não sabia da mudança. Por outro lado, os 10 [dez] oftalmologistas serão transferidos e o programa de residência médica [formação e qualificação profissional] será interrompida.

Ao salientar os problemas enfrentados pela população que necessita de “pronto-socorro”, os pacientes que realizam tratamento na área de oftalmologia, no hospital de Taipas, afirmam que o serviço oferecido é de excelente qualidade. O médico [oftalmologista do HGT] Rafael Lourenço Madagleno informou [G1-SP] que essa mudança abandonará a população da Zona Norte, que, portanto, ficará sem essa especialidade; salienta-se que a oftalmologia do HGT é considerado um centro de excelência pelo médico da unidade, Dr. Madagleno. Não se pode aceitar a retirada de uma área que atende, de fato, a população, oferecendo um serviço de qualidade. Sabe-se que o hospital de Taipas precisa melhorar em seu todo, e não interromper um trabalho que está dando certo.

Na outra ponta, não há nenhum tipo de explicação, por parte da Secretaria da Saúde, acerca dos reais problemas que o hospital necessita resolver. Temos a excelência das especialidades, por um lado, e a precariedade de equipamentos e serviços no atendimento diário, por outro. A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo é responsável pela situação encontrada no hospital de Taipas [HGT]. Precisamos cobrar o que já é garantido, por direito, na Constituição Federal [CF/1988 – Art. 196 ao 200] e, por sua vez, impedir mais esse absurdo. Não há mais espaço para esse tipo de política, em que o descaso com a população seja a regra. Nós da “Noroeste Sem Medo – São Paulo” e do “PSOL – Núcleo Popular Antonio Bento – Pirituba/Jaraguá” reafirmamos nosso compromisso com o movimento de defesa do HGT. Esse é o nosso papel.

Saúde é um direito!!!
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São Paulo, 2017

Márcio Romeiro
Núcleo Antônio Bento (PSOL-SP)
Frente Noroeste Sem Medo (SP)