Doria começa o desmonte em São Paulo

01/02/2017 Artigos, João Doria

Por Márcio Rosa, da Executiva Municipal do PSOL-São Paulo

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A gestão do prefeito João Dória já mostra a que veio. A cidade é campo de disputa entre diferentes projetos e visões de mundo, uns mais inclusivos e outros excludentes, mais democráticos ou tecnocráticos, voltados para as pessoas ou voltados para as empresas e interesses privados. Doria é abertamente neoliberal e conservador, e seu cartão de visitas traz a exclusão, falta de participação e negação da política.

Todas as medidas da prefeitura são anunciadas com forte carga de propaganda. As visitas surpresa constrangem os funcionários e não enfrentam os problemas estruturais da cidade. A estratégia de se fantasiar de gari, cadeirante, além de desrespeitosa e roubar o lugar de fala, é falsa, porque ele não é na verdade o contrário disso. Mesmo a relação com as empresas, que fazem doações “sem contrapartida”, também são organizadas em torno da propaganda, com as empresas ganhando anúncio com destaque da boca do prefeito. A estratégia de marquetagem envolve, além disso, o controle da agenda da imprensa, disfarçando ações da prefeitura e criando uma imagem artificial do prefeito.

O programa Cidade Linda, uma das iniciativas mais propagandeadas do governo, é constituída por ações de zeladoria misturadas com ações de limpeza social. Limpa um bueiro, apaga um grafite; retira camelôs e moradores de rua, conserta uma calçada ou corrimão. Essa visão de prefeito síndico, desses que enchem o saco do condomínio, tem uma sobrevalorização da aparência e quer impor padrões de comportamento e de estética. Partindo de uma visão de mundo conservadora e meio careta, típica de uma certa classe média emergente que vive em um mundo isolado em seus condomínios e espaços gourmet, quer impor seu padrão higienista e asséptico à cidade. Daí bota na prefeitura um quadro do Romero Brito…

Para completar a limpeza, as ações da área de assistência social. Os moradores de rua removidos foram alocados em baixo de um viaduto sem estrutura adequada e escondidos atrás de uma tela. A política para os usuários de drogas, em especial na dita “Cracolândia”, sofreu um brutal retrocesso com o fim do programa “De braços Abertos” e os acenos para as comunidades terapêuticas e a idéia de internação.

A ideia de que o governo deve ser como uma empresa, embasada em uma demonização do Estado como o “espaço da corrupção”, permite que a privatização avance na prática e nos sentimentos das pessoas. Nesta toada o prefeito propõe a privatização e terceirização de equipamentos públicos, como o Centro Cultural São Paulo e as bibliotecas, já tendo inclusive criado uma secretaria para tal fim. Ou a mudança da distribuição de remédios para farmácias particulares. Por outro lado, a prefeitura planeja cortar a merenda, transporte e material escolar, bem como recursos de outras secretarias. O fechamento das secretarias ligadas ao combate às opressões, que aparece como redução de gastos, também acena com a mão direita às opções da prefeitura.

Ao contrário do grande gestor que o prefeito jura ser, o que vemos são medidas mirabolantes, parciais ou questionáveis. O Corujão da Saúde funciona em condições inadequadas, durante a madrugada e com todas as dificuldades envolvidas. As tarifas do transporte coletivo não aumentaram na catraca, mas aumentaram no bilhete mensal, mais importante para o trabalhador, para não falar da cobrança nos terminais. O aumento da velocidade nas marginais é uma total irracionalidade, contrariando a experiência e recomendações diversas, até da ONU, e resultou em um imediato aumento dos acidentes.

Por fim, o prefeito diz não ser político. Mas desde sua indicação e da guerra interna que aconteceu no PSDB, tem feito muita política, de bastidor e de negociata. Vejamos a sua base na Câmara Municipal, composta por todos os direitosos e fisiológicos de plantão, do Milton Leite ao Adilson Amadeu. Para complementar, até mesmo as suas indicações para secretarias foram problemáticas, com o indicado para a subprefeitura da Sé afastado pelo Tribunal de Justiça pois foi condenado em segunda instância.

Com o crescente descrédito dos partidos e da política, reforçados por uma posição hipócrita contra a corrupção, tem tido sucesso figuras midiáticas com posições conservadoras. João Doria é mais uma expressão desse fenômeno, como aconteceu na Itália após a operação Mãos Limpas, quando se abriu espaço para um fanfarrão como Berlusconi ser eleito. A eleição de Doria nesse momento de golpe e de crise econômica é a “tempestade perfeita”, completando a tríade dos infernos, somado a Alckmin e Temer.

Os resultados de uma política excludente, do desmonte dos serviços, da crise econômica, são potencialmente explosivos. Por um lado já se percebe o aumento da miséria, das dificuldades para os trabalhadores, da violência urbana. Mas também é nessas horas que a luta social se amplia, quando novos atores entram em cena fazendo as coisas de outras formas. É tarefa do PSOL contribuir para a organização dos “de baixo”, fazendo a disputa na sociedade para que toda essa crise se transforme em mudança social e não em violência e mais exclusão.