Nota do Setorial de Pessoas com Deficiência do PSOL sobre representatividade nas Paralimpíadas

05/09/2016 Notas, Pessoas com Deficiência, PSOL

cleo-pires-paulo-vilhena-paralimpiada-3As Paralimpíadas são um evento esportivo internacional, que conta com a participação de atletas com deficiências sensoriais e físicas. A 15ª edição, em 2016, ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, entre os dias 07/09 e 18/09. Pelas estimativas, deverão participar desse evento pouco mais de 4 mil atletas de cerca de 160 países. Como boa parte dos ingressos estão parados nas bilheterias, os responsáveis pelo evento, em conjunto com a Agência Africa e apoiados pela revista Vogue Brasil, decidiram divulgar uma campanha como forma de estimular a compra de ingressos, publicando em seu Instagram a foto dos atores globais Cléo Pires e Paulo Vilhena, com a hashtag “somostodosparaolímpicos”. Os atores aparecem, respectivamente, sem um dos braços e sem uma das pernas.

O grande problema não está na “boa intenção” dos organizadores em aumentar o numero das vendas dos ingressos. Eles foram capazes de fazer propagandas melhores, inclusive para esta edição, como se pode verificar pelas redes sociais. O problema maior está na legitimidade da representação, que por sinal, se reflete em diversas causas pelo pais afora (#foratemer). Estamos no século XXI e a duras penas, de algumas décadas para cá, homens e mulheres, com deficiência ou sem deficiência enquanto líderes de organizações sociais do Brasil e de outros países, movimentos de pessoas com deficiência e o próprio Estado, enquanto poder público, transformou o paradigma da deficiência que antes era tida como sinônimo de doença, limitação, invalidez, inferioridade, feiura, incapacidade, entre outros.

Portanto, com a quebra desses velhos conceitos e a desconstrução dos antigos valores sobre a deficiência, incutida principalmente por muitos séculos de domínio das muitas religiões espalhadas por todo o mundo que entendiam a deficiência como desgraça ou castigo, passou-se a lutar por um suporte pela equiparação de oportunidades.

Agora o senso comum é reconhecer que todo ser humano está embutido de valores e potencialidades, independentemente de sua cor, raça, credo, condição social, cultural, física e mental. É absolutamente razoável pensar, então, que o problema não está mais na deficiência, mas sim na falta de acessibilidade ao meio em que as pessoas com deficiências vivem e na falta de oportunidade para estas, causada pelo preconceito e discriminação que age como uma doença social. Esta doença chamada preconceito atua de maneira silenciosa, revestida muitas vezes de ‘’proteção e/ou ajuda’’. A discriminação só é percebida por quem a sofre, na maioria das vezes. E é exatamente o que acontece na campanha do “#somostodosparaolímpicos”. Quando se colocam duas pessoas públicas, que nesse caso são dois atores globais, protótipos de um tipo de beleza e um modelo de sucesso, fica nítido o que se pretendeu como técnica de marketing: a aproximação – rasteira e inadequada – da ideia de que as pessoas sem deficiência estão próximas das pessoas com deficiência – sabe-se lá em que termos ou condições. Na pratica, contudo, o que ficou realmente demonstrado é que as Pessoas Com Deficiência não podem ocupar estes espaços duramente padronizados em uma beleza estética pasteurizada, fugaz e pior, que massacra aquilo que estiver fora deste padrão.

Continuam os deficientes “não tendo capacidade’’ para se representar, reproduzindo o antigo paradigma. Por fim, vivemos um período histórico em nosso pais de grande crise de representatividade, e por que não dizer também, uma crise de protagonismo. Nosso povo se encontra carente de autoestima, disperso socialmente e distante do reconhecimento de sua identidade e suas próprias potencialidades. Por isso, o segmento das Pessoas com Deficiência, historicamente tão massacrado pela discriminação e preconceito imposto pelos valores neoliberais, repudia veementemente esta campanha publicitária pelo fato de nos colocar, novamente, nos porões ou nos quartos dos fundos da sociedade.

Setorial das Pessoas Com Deficiência do PSOL